A construção da casa no 3º ano



Assim um dia um pássaro cantou:

Havia um homem chamado João. Ele era um homem muito bondoso e fazia casas com barro e capim, cuidando sempre para fazê-las na posição correta - viradas para o nascer do Sol. Ele era tão bondoso que não cobrava nada para construir casas. E ainda ensinava com o dom das palavras todos aqueles que reconheciam seu talento e se dispunham a aprender com ele. Alguns se afastavam dele por andar sempre sujo de barro, sem perceber a bondade de sua alma e a beleza de seu trabalho. Benditos aqueles que o tinha por perto. Depois de muitos e muitos anos construindo casas para muitas e muitas pessoas que vagavam perdidas e temerosas, sem abrigo, chegou o momento de João descansar. Deus o chamou para morar ao seu lado. Todos entraram em prantos por causa da morte de João. Para consolá-los, Deus nos criou. Desde então nasceu o “joão-de-barro”, fazendo sua casa de barro e capim, sempre virada para o nascer do Sol. E deixando-a depois de seu uso, para que outros seres possam também ali se abrigar.

O currículo do 3º ano para a Pedagogia Waldorf tem como grande objetivo oferecer às crianças a oportunidade de reconhecer o ser humano como grande transformador do mundo, bem como ponto de ligação entre o terreno e o divino. Em diálogo com o momento vivido pela criança com a chegada dos seus 9 anos, está o ser humano que saiu do Paraíso celeste, da fantasia protetora, mas que mantém em si a força divina que lhe permite santificar a terra. Embora a realidade possa lhe parecer sombria, e o medo e a solidão por vezes se façam presentes, ao reconhecer a força criativa da humanidade atuando através do trabalho, ele pode nutrir a confiança e o entusiasmo pelo mundo.

Neste caminho, o objetivo da Época das Habitações é apresentar às crianças a diversidade das formas de moradia que acompanharam a história da humanidade. Partindo das casas dos animais, nos aproximamos dos abrigos naturais, até chegarmos a diferentes estruturas criadas pelas mãos dos diversos povos da nossa Terra. Com isso, buscamos preparar os canteiros para que cada criança se perceba nesse caminho, criando identidade com uma ou outra habitação e aproximando-se de si mesma.


A história do João de Barro foi nosso ponto de partida. Ser que nos inspirou a trabalhar com generosidade e veneração por tudo o que a natureza nos oferece. Descobrimos a grande espiral que sustenta sua casa, num diálogo cuidadoso entre o que vive dentro e o mundo de fora. Unimos nossas mãos sujas de barro e seguimos as direções do mestre, modelando novos ninhos que, após muito esforço e cooperação foram entregues à natureza, para que pudessem proteger e abrigar os seres da floresta, conforme nos ensinou a sabedoria alada.

O segundo passo no universo das construções foi a vivência das medidas, nesta fase ainda de modo intuitivo, usando o próprio corpo como principal ferramenta. Assim, fomos proporcionando situações que criassem uma base segura quanto à percepção do espaço.

As bases estavam firmes para um novo passo. Chegou a hora de crianças e famílias darem as mãos ao fazer. Assim como as personagens da história que permeia toda a época, os alunos auxiliaram seus pais numa grande construção. Que tipo de casa combina com a nossa escola? O que a natureza nos oferece? E nós? Para quem vamos oferecer os frutos do nosso trabalho? A resposta das crianças foi direta e reta! “Uma casa de taipa, professora! Aqui temos muito bambu, barro, palha e podemos fazer como João e oferecer nossa casa para todas as crianças da escola!” E assim mais mãos se entregaram ao barro e mais almas se permitiram vivenciar a espiral de João, numa construção que vai muito além do que os olhos veem: construção da casa de taipa; construção da relação entre as famílias; construção da confiança em si, no outro, nos processos e no tempo. Aqui estamos: em processo de autoconstrução.


O ponto de chegada? Bem, após este longo caminho, é que chamamos as crianças a vivenciarem a construção do seu próprio eu, ou seja, de sua própria casa. Se pensarmos nas nossas casas, podemos nos perguntar: o que ela diz sobre nós? Bom, o principal objetivo deste trabalho é criar o espaço para que as crianças, ao construírem suas casas, também atuem na construção de si mesmas. E ao fim do trabalho, quando olharem para ele, inconscientemente também sintam a resposta da pergunta que acabei de fazer a vocês: o que esta casa diz sobre mim?

A proposta foi que toda a estrutura das casas fosse feita na escola, buscando garantir a atuação integral das crianças no processo, bem como as parcerias e o fortalecimento do grupo, que irá compartilhar desafios, alegrias, tristezas, frustrações, vitórias... Ou seja, eles podendo viver juntos esse processo, segurando uns nas mãos dos outros, nutrindo a empatia e a compaixão.


Um aspecto que foi trazido como fundamental para o processo foi a sustentabilidade, trazendo o desafio de buscarmos recursos biodegradáveis e recicláveis para as construções. Lembrando que o objetivo da proposta não foi a perfeição ou durabilidade, mas sim a vivência do processo. Mais uma vez nos lembramos de João, sabendo que um dia a natureza receberá de volta tudo o que criamos com as nossas próprias mãos.

por Catarina Menezes, professora de classe do 3º ano 2022

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